Laurentina Vaz Cruz – Dona Tina
Texto publicado no livro Os Cruz, de Mauro Cruz.
Henry Thomas em História da Raça Humana, referindo-se a Leonardo da Vinci, escreveu: “Lá muito raramente, a natureza se cans de tantas experiências com manequins e cria um ser de verdade”. Este ser de verdade pode, no entanto, manifestar-se de maneiras diferentes. Sobretudo pode ser dotado de bondade, compreensão, fé na vida, sentimento de irmandade, carinho e entusiasmo, ocorrer com Tina. Mulher especial em todos os aspectos, bondade, dedicação e fé na vida, eram o seu lema. Uma representante da raça humana capaz de nos dar orgulho de pertencer a ela.
Nasceu em outubro de 1911, na cidade de São Francisco do Glória, na fazenda de seus pais, Vicente Ferreira Vaz e Maria Delphina de Jesus, foi registrada com o nome de Laurentina Rosa de Jesus. Seus avós paternos foram João Joaquim Vaz e Maria Antonia de Jesus e maternos João José Dias e Carlota Rosa de Jesus, todos daquela região.
Ali cresceu, estudou e viveu até aos dezoito anos, quando casou-se em vinte e cinco de setembro de 1929 com José Cruz, o Juquita, primogênito de uma família de onze irmãos, recentemente órfãos. Passou a chamar-se, então, Laurentina Cruz Vaz, adotando o nome do pai e do marido. Com ele, viveu em Juquita, onde nasceram os filhos. O casal, de início, morava em uma casa simples, sem conforto, mas, com o passar do tempo, foram melhorando as condições de vida. Juquita trabalhava na roça e, nas horas de folga, fazia tijolos e telhas para vender. Laurentina, além de cuidar da casa e dos filhos, ajudava o marido na fabricação de tijolos e telhas. Criaram os filhos com muito amor e dedicação, ensinando-lhes os valores cristãos e a importância do trabalho honesto.
A vida não foi fácil para o casal, mas, com muita coragem e determinação, conseguiram superar as dificuldades. Laurentina era uma mulher forte e batalhadora, sempre pronta para ajudar o próximo. Certa vez, quando um dos filhos adoeceu gravemente, ela não mediu esforços para salvá-lo. Caminhou durante duas horas até a cidade mais próxima para buscar ajuda médica. Chegando lá, encontrou o médico, que, sensibilizado com a situação, decidiu ir até a casa deles para atender o menino. Graças aos cuidados do médico e à fé de Laurentina, o filho se recuperou.
Laurentina e Juquita viveram juntos por mais de cinquenta anos, até que ele faleceu, deixando-a viúva. Mesmo com a perda do companheiro, ela continuou firme, cuidando da família e mantendo a fé em Deus. Laurentina faleceu aos oitenta e cinco anos, deixando um legado de amor, fé e perseverança para os filhos, netos e bisnetos.
A história de Laurentina Rosa de Jesus é um exemplo de vida, de luta e de superação. Uma mulher que, apesar das dificuldades, nunca desistiu de seus sonhos e sempre acreditou na força do trabalho e na fé em Deus.
Certa vez, um de seus filhos adoeceu gravemente e ela, de imediato, o levou ao hospital mais próximo. O menino foi internado e, após alguns dias, recebeu alta. No entanto, a doença voltou e ele precisou ser internado novamente. Laurentina, preocupada com a saúde do filho, decidiu levá-lo a um especialista na cidade vizinha. Para isso, precisou vender alguns pertences para custear as despesas da viagem e do tratamento. Graças a sua determinação e fé, o filho se recuperou completamente.
Em outra ocasião, Laurentina precisou enfrentar uma longa jornada para buscar ajuda médica para um dos netos. O menino estava muito doente e, na pequena cidade onde moravam, não havia recursos para tratá-lo. Laurentina, então, decidiu ir até a cidade grande, aguardando seu atendimento, sem condições de viajar até a cidade de Cataguases, para consultar um médico, que custava o dinheiro que não tinha. Após terem caminhado duas ou três horas, depositavam na D.Tina todas as suas esperanças. Ela, todos os dias, de manhã à noite, graciosamente os recebia, limpava suas feridas, tratava de suas doenças, dava-lhes o remédio que achava mais acertado, pela leitura incessante das bulas, “internava-os” se necessário em sua casa, dava-lhes alimento e aquecia-lhes o coração, diminuindo o sofrimento, e fazenda-os sentirem-se membros da raça humana e irmãos uns dos outros. O amor era a sua arma! Sua vontade de ajudar e seu carinho inundava e iluminava todos à sua volta.
Teve várias facetas, todas voltadas para a felicidade e o bem-estar dos que a rodeavam. Adorava festas e, nesta área, foi confeiteira, florista, modista, escultora, decoradora e violinista. Exerceu em Sereno a função de Juiz de Paz, ofício que respeitou que sempre inspirou. Trabalhou em prol da Igreja e da comunidade. Sua participação foi decisiva junto à Companhia de Estrada de Ferro Leopoldina, quando esta findava suas atividades na região, para que a linha férrea fosse de fato estendida até Sereno. Com a mesma garra, abraçou o clube social local através do mandato de presidente e conselheira. Incentivou a cultura e as artes, apoiando e promovendo os artistas locais e os que por ali passavam.
Foi filha de uma era, marcou o tempo que viveu, colorindo as vidas de seus contemporâneos, e dando a um sentido além da própria existência.
Transferiu-se para Muriaé e em seguida para Juiz de Fora onde, em 1985, partiu desta vida, com certeza para algum lugar mais importante. Deixou um legado de amor e carinho com o amor que marcará ainda muitas vidas.
Nos nossos corações, aquecendo-nos ficou para sempre, a mãe Tina, a madrinha Tina, a Tia Tina, a Dona Tina.
